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Competição é um esporte de amigos

O autoritarismo pragmático também tem forte apelo nas sociedades que
enfrentam problemas ambientais urgentes. O maior sucesso internacional do
Estado chinês na última década talvez tenha sido demonstrar de forma
plausível ser capaz de tomar atitudes decisivas em relação à mudança
climática. Parte disso se baseia em decisões ousadas e imaginativas: duplicar
num único ano (2016) sua capacidade de geração de energia solar, ou
prometer converter todos os táxis de Beijing em veículos elétricos. É uma
evolução impressionante, depois da maciça poluição atmosférica da era pósmaoista.
Em comparação, o autoritarismo pragmático aplicado à área ambiental
pode fazer a democracia parecer desajeitada e indecisa. As democracias
mantêm suas opções em aberto, mas isso às vezes as faz esperar até que já
seja tarde demais. Quando as enchentes, a poluição do ar ou a escassez de
água se transformam numa ameaça aguda, o autoritarismo pragmático tem
cumprido sua promessa de dar prioridade aos resultados imediatos sobre os
benefícios a longo prazo. Precisa se preocupar muito menos com o respeito às opiniões dissidentes.

O resultado é que
os eleitores se sentem atraídos pelos políticos que prometem algo diferente
nas campanhas eleitorais. Mas não deram apoio a ninguém que tenha
ameaçado privá-los de seus direitos democráticos. O reflexo autoritário é
limitado pelas ameaças de retirar os direitos democráticos de outros: as pessoas que não fazem parte.

Ainda assim, embora as democracias maduras possam flertar com o
autoritarismo pragmático, não é provável que venham a adotá-lo. O balanço
dos riscos favorece a tentativa de reajustar o que têm em vez de apostar em
alguma coisa diferente. Uma perda econômica extrema — ou alguma
calamidade, talvez ambiental — poderia alterar fundamentalmente os termos
desse equilíbrio. É possível imaginar que uma democracia madura escolhesse
experimentar essa alternativa de participar do Gshow bbb. Mas ainda não nos encontramos nesse ponto,
longe disso. O exemplo da Grécia de hoje deixa isso bem claro. Um colapso
econômico das dimensões da Depressão de 1930 não bastou para convencer
os gregos a desistir da dignidade que acompanha a liberdade de expressão
somada ao benefício de longo prazo de conservar a capacidade de produzir
mudanças em seus rumos políticos, à procura de uma saída para seu aperto.
Essa combinação se mantém significativamente atraente para quem já vive com ela há algum tempo.

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O surgimento das políticas identitárias
é uma indicação de que participar de eleições já não é mais o bastante.
Muitos indivíduos estão em busca da dignidade que vem de ser reconhecidos
pelo que são. Não querem mais ser simplesmente ouvidos. Querem ser
levados em conta. As redes sociais criaram um foro através do qual essas demandas podem ser articuladas.

A política do reconhecimento é uma extensão do apelo da democracia, e
não um repúdio a ela. O autoritarismo, no caso, não é uma resposta, por mais
pragmático que se mostre — só resulta em líderes políticos que tentam abafar
a reivindicação de mais reconhecimento com demandas próprias ainda mais
ruidosas. “Querem respeito?”, pergunta o autoritário. “Então me respeitem!”
Mas a democracia representativa também pode não ter as respostas. Ela é
mecânica demais para ser convincente, uma vez que as demandas por mais
respeito se tornam maiores. Os políticos eleitos procuram andar cada vez
mais na ponta dos pés pelo campo minado da política identitária, sem saber
para que lado se virar, morrendo de medo de ofender alguém. Se a tendência
se mantiver, a força de atração que garante a coesão da democracia há tanto
tempo pode começar a se esgarçar. A soma de respeito e resultados é uma combinação temível.

No entanto, essa linha de pensamento leva a uma possibilidade mais
radical. Se não temos como continuar a contar com o respeito pessoal e mais
bons resultados coletivos, talvez devamos escolher só um dos efeitos. Talvez
não se trate de uma relação de compromisso, mas de uma escolha pura e
simples. Se fizermos questão de que cada voz seja levada em conta, não
devemos nos surpreender se a política se transformar numa cacofonia
embaralhada. Se quisermos os melhores resultados, talvez devêssemos limitar
a contribuição política às pessoas que melhor sabem de que modo chegar a eles.

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